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Lendas do ofício

março 27, 2013 | Artigos, Dicas | 0 Comments |

Vários alunos dos cursos de legendagem chegam para a primeira aula com a clássica visão do senso comum: os tradutores cometem erros grosseiros com muita frequência*. Mas basta uma introdução sobre as especificidades da tradução para legendas e um primeiro exercício de resumo para essa visão cair por terra.

A legendagem é um dos únicos tipos de tradução nos quais o consumidor tem acesso ao original e à tradução ao mesmo tempo ― o outro são os livros bilingues ― e isso leva à crítica imediata. Quando o espectador que entende a língua original lê uma tradução diferente da que espera na legenda, logo a rotula como errada. O problema é que ele não leva em consideração as limitações a que o legendador está sujeito: elas são principalmente físicas (espaço disponível na tela para a digitação dos caracteres) e temporais (o ritmo da palavra falada, que exige uma redução às vezes radical do texto).

Por isso é muito comum os alunos comentarem ao final dos cursos que mudaram a forma como encaram a legendagem e que não conseguem mais ver um programa legendado como simples espectadores. Eles passam a tentar entender por que uma certa escolha foi feita ou por que tal informação ficou de fora.

É claro que essas limitações não servem de desculpa para os erros grosseiros de tradução, naqueles casos em que há pouco ou nenhum espaço para gradações de interpretação. Esses acontecem mesmo e continuarão acontecendo, seja por falta de conhecimento do tradutor, seja porque o áudio está ruim e o script é falho ou incompleto, seja por um lapso momentâneo, como traduzir “heart” como “cérebro” ou coisa que o valha.

*Dica: Nunca mande uma carta de apresentação para uma produtora de legendagem dizendo que quer uma chance porque vê muitos erros de I tradução nas legendas e acha que pode fazer melhor. That’s a no-no!

Tradutora e revisora de legendas desde 1994, Sabrina é bacharel em Jornalismo, especialista em Tradução e mestre em Estudos da Linguagem (Tradução) pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Sua dissertação de Mestrado, "Tradução para legendas: uma proposta para a formação de profissionais", serviu de base para o desenvolvimento do curso de legendagem do GTC. Atualmente leciona a disciplina Tradução Audiovisual da graduação em Letras da PUC-Rio.

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