Legendagem “versus” Dublagem

abril 21, 2014 | Artigos | 0 Comments |

Estamos testemunhando uma discussão acalorada sobre dublagem versus legendagem. Na verdade, essa discussão sempre existiu em todos os países que exibem uma quantidade considerável de conteúdo estrangeiro em sua programação, seja na TV ou no cinema.

O que fez com que a velha discussão ganhasse destaque agora foi o fato de os canais da TV a cabo terem começado a oferecer a versão dublada de séries e filmes estrangeiros. Essa tendência já existe há mais tempo nos cinemas, mercado no qual a dublagem vem ganhando cada vez mais espaço. Até recentemente, a maior parte do conteúdo estrangeiro exibido na TV paga do Brasil era legendada. A justificativa dada pelos canais para a mudança é que a TV paga está se popularizando no país; o Brasil está mais próspero, com a economia em crescimento, e o poder aquisitivo da população está maior. Por isso, as classes C e D estão contratando o serviço de TV a cabo. No caso específico do Rio de Janeiro há também a pacificação das comunidades, que agora têm à sua disposição esse tipo de serviço de forma oficial. Na época da pacificação da Rocinha, a maior favela da América Latina, uma única operadora de TV a cabo vendeu 70 assinaturas em um dia. Enfim, enquanto antes o foco das operadoras de TV a cabo eram as classes A e B, ele agora está mudando para as classes C e D que, segundo pesquisas de opinião, preferem a dublagem por terem se habituado a ela nos canais abertos. Veja aqui, aqui e aqui algumas matérias e críticas publicadas na imprensa sobre a polêmica.

Eu acho muito perigosa a generalização de que “rico prefere legendado; pobre prefere dublado”. Pesquisas acadêmicas já mostraram que não é bem assim. Essas preferências têm a ver com questões culturais, hábitos, idiossincrasias pessoais e outros motivos. Sabe-se por exemplo que muitas donas de casa das classes A e B adoraram quando seus programas preferidos passaram a ser dublados. Assim elas podem sair da frente da TV sem perder muito conteúdo, pois continuam ouvindo os diálogos traduzidos.

Mas o que está deixando muita gente furiosa é que alguns canais optaram pela dublagem em detrimento da legendagem. Ou seja, deixaram de oferecer o conteúdo na língua original com legendas, apesar de a tecnologia digital permitir a exibição concomitante das duas opções.

Como se sabe, a dublagem e a legendagem são duas modalidades de tradução completamente diferentes: enquanto que na dublagem, só para ficarmos nas diferenças mais básicas, nenhum resumo deve ser feito, e *todas* as sonoras do programa devem ser traduzidas, incluindo aí reações dos personagens, falas de fundo, músicas cantadas etc., na legendagem é justamente o contrário: há que se resumir as falas levando-se em conta o tempo e o espaço disponíveis. E, dependendo da natureza do programa que está sendo traduzido, a necessidade de resumo é tão grande que o tradutor chega a excluir algumas falas.

Eu particularmente prefiro a legendagem, mesmo quando não entendo a língua original. Gosto de ouvir a voz e a entonação dos atores originais, mas reconheço que algumas séries ficam melhores dubladas do que legendadas. Quem não se lembra de “Gilmore Girls”? Na versão legendada, a tradução era super-resumida, do contrário seria impossível acompanhar os diálogos entre Lorelai e Rory, por exemplo. Muitos chistes, referências culturais e outras nuances acabavam sendo cortados das legendas, e só quem dominasse o inglês tinha acesso a eles. Isso não é problema na dublagem, desde que a tradução, claro, esteja bem-feita.

O pessoal mais maduro se lembrará também do seriado “A Gata e o Rato” (“Moonlighting” no original). Eu me apaixonei pelo seriado ao assistir o primeiro episódio na finada faixa “Terça Nobre”, na Globo (não me pergunte o ano; já me esqueci). Como todos os “enlatados” exibidos pela Globo, a série era dublada, o que não me impediu de acompanhar todos os episódios exibidos aqui. Muito tempo depois, tive a chance de legendar a série para o canal Multishow, e sofri tanto, mais tanto, que comecei a dar mais valor àquela versão dublada da TV aberta.

Felizmente, essa polêmica besta entre dublagem e legendagem está para acabar, pois a tecnologia digital permite a disponibilização do áudio original, do áudio dublado e das legendas, e a maioria dos canais a cabo já percebeu que não há motivo para excluir e enfurecer uma fatia do público quando tem os recursos para agradar a gregos e troianos.

Tradutora e revisora de legendas desde 1994, Sabrina é bacharel em Jornalismo, especialista em Tradução e mestre em Estudos da Linguagem (Tradução) pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Sua dissertação de Mestrado, "Tradução para legendas: uma proposta para a formação de profissionais", serviu de base para o desenvolvimento do curso de legendagem do GTC. Atualmente leciona a disciplina Tradução Audiovisual da graduação em Letras da PUC-Rio.

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